Dá para prestar atenção no que eu falo?


         Estávamos sentados na mesa do bar há 20 minutos, trocamos no máximo um oi e algumas palavras.  De lá para cá, os três estão introspectivos mexendo no celular. Minto, os três, não. Observando o bar eu percebo existir no mínimo uns 40 fazendo a mesma coisa em um lugar que tem 60 pessoas.

         Algum tempo atrás, eu escutaria gente conversando, pessoas “alegres” com cantadas péssimas ou cantando músicas de um jeito bem desafinado. Agora existe um silêncio, as tias da limpeza até ficam tristes por não ter bêbados jurando amizade eternas para elas ou desabafando algum problema da vida.
         Eu estou com um problema, mandei mensagem para que eles saíssem comigo, porque precisava desabafar com eles. Pergunte para mim se eu abri a boca para falar algo. Não tive nem oportunidade. Tô aqui olhando eles dando risadas aleatórias de alguma coisa engraçada que viram no Facebook; desculpa, eu generalizei.
         Alguns estão selecionando alguma garota em um cardápio virtual chamado Tinder. Porra, que graça tem isso? Você sabe os interesses, a idade, o nome e a localização antes de trocar algumas palavras. O que sobra para conversar com essa pessoa? Como se puxa assunto sendo que você já sabe quase tudo sobre ela? É tipo... Oi, tudo bem? Vamos sair para beijar na boca? Mas... Só isso... sem conversa. Se rolar uma transa depois, desculpe-me não quero filosofar sobre a vida depois do ato, prefiro mandar um snapchat.
         Ai você me fala, existe o kiwi que ajuda as pessoas a conversarem. PORRA, precisa de um aplicativo para as pessoas fazerem perguntas para o outro? Cadê a conversa olho no olho? Não gosto dessa coisa cibernética, desses amores virtuais, de amizades por tela. Não vejo vida em nada disso. Tenho saudade de amizades que precisavam se encontrar, do amor que falava coisas bonitas pessoalmente, da vivência, dos toques e do calor humano. Eu poderia dizer que as redes sociais são melhores do que um porre de vodka; você pode falar tudo que vem na sua cabeça sem nenhum medo, e a vantagem é que acorda no outro dia sem ressaca.
         Hoje em dia, os elogios só acontecem pela internet, os desabafos só nas redes sociais, ao ponto de virar o novo “Muro das Lamentações”. É uma nova forma de chamar a atenção de todos e um jeito de fazer com que a timidez não nos atrapalhe. Eu tento quebrar tudo isso que disse aqui, mas não consigo. Sou pego fazendo o mesmo.
         Eu queria dizer para eles que eu perdi meu emprego, que meu relacionamento acabou e estou me sentindo um nada com um vazio enorme por dentro, mas talvez eles nem escutem. Apenas leiam a carta de despedida desse depressivo filosófico que está escrevendo aqui. Só não posso cometer o erro de colocar na cabeceira da cama, senão meu corpo apodrece e ninguém percebe que morri. O melhor jeito é programar uma publicação nas redes sociais... Péssima ideia.
         Desculpa as baboseiras que compartilhei com você, mas é isso que me sobra quando todos os meus amigos estão no bar mexendo no celular e com o meu sem bateria: filosofar!