O quê? Eu serei pai?


         Tá, eu sei que eu deveria ter contado essa história primeiro, mas eu tenho tanta coisa para te contar que fico empolgado e acabo esquecendo da principal: como eu descobri.
         Se você está esperando algo para se emocionar, esqueça. A minha história não teve nada de mágico no momento, eu não ganhei sapatinho ou uma cartinha da minha futura filha (coisas que algumas mulheres preparam para seus maridos), na verdade, eu fiquei sabendo que eu seria pai de uma maneira bem estranha.

         Era um domingo clichê, ou seja, eu fiquei de pijama o dia inteiro, assistindo porcaria, comendo porcaria e falando porcaria. É sempre um dia que eu fico entediado, mas, como uma novela mexicana, ia acontecer uma reviravolta com grandes emoções. Eu estava assistindo meu time de coração jogar futebol, quando, de repente, surge a Gabi (minha muié) no meu quarto com um sorriso do tipo “Tô preocupada e preciso tirar uma dúvida”. SIM, bem específico essa feição, mas é um dom que as mulheres possuem de dizer as coisas sem falar nada. Na mão dela estava um aparelho que eu pensava ser um termômetro colorido e divertido, mas era um “teste de gravidez”.
         Pode parecer idiota, mas eu sempre tive curiosidade para saber como era um teste desse. Achava engraçado (até aquele dia) você mijar (urinar é mais bonito) em um palitinho e isso definir se você está gravida ou não.
Eu, no meu mundo Disney, nem estava preocupado se eu seria pai ou não.     Digamos que eu estava de consciência limpa, queria mesmo só ver como era, se era algo instantâneo e como a mulher fazia isso.
         Perguntei pra Gabi: — Você vai fazer o teste agora?
— Sim. Estou alguns dias atrasada, mas sei que é psicológico, vou fazer só por fazer.
         O inocente aqui perguntou, rindo: — Posso ver como funciona?
— Claro, amor, vamos lá.
         (Não leia essa próxima parte se você estiver comendo, a não seja que curta uma chuva dourada, o que eu acho um horror... Se você não sabe o que é isso, POR FAVOR, não pesquise. Sério, não tô fazendo psicologia inversa, realmente não quero que veja. Eu me arrependi dessa curiosidade.)


         Pronto, lá fomos os dois (isso que são companheiros, até na hora do xixizinho estão juntos); ela sentou no vaso, ficou me olhando, começou a surgir um silêncio e nada dela fazer xixi... Aí, como eu sou um cara legal, liguei a torneira (só um pouquinho, juro que não desperdicei água, a Gabi estava repondo do outro lado) e... pronto... ela fez o bendito xixi e me disse: “Oh amor, funciona dessa forma: se aparecer só um risquinho é negativo, se surgir o segundo risquinho é positivo, mas relaxa, tá? Tenho certeza que aparecerá só um risquinho (escrevendo para vocês eu percebi o quanto a Gabi tem um instinto péssimo, nem a escolha do sexo ela acertou... coitada da Clarice quando for pedir conselho para a mãe). Então, se passaram alguns segundos quando, de repente....
         GOOOOOOOOOOOOOOOOL. Eu escutei que meu time tinha feito gol, saí do banheiro e comecei a comemorar como um maluco (é raro ele marcar gols), quando, ao mesmo tempo que o cara está no “OOOOOL”, a Gabi diz “Ai meu Deus, ai meu Deus, AI MEU DEUS! THIAGO, SEU GOSTOSO (mentira, só Thiago mesmo), VENHA AQUI!” Eu pensei “Fodeu, deu merda...”
         Saí correndo e fui em direção ao teste, daí começou a surgir um segundo risquinho e o tempo pareceu congelar. Nós nos olhamos, sem sabermos o que fazer. Sei lá, por um momento eu quase assoprei aquele teste para ver se o risquinho desaparecia (filha, papai ama muito você, mas é que não é legal receber uma notícia assim). Eu só não me mijei todo, porque a Gabi estava ocupando o vaso e seria deselegante tirá-la do lugar...
         Pronto, estava emplacado o gol, digo, o segundo risquinho e não era defeito de fábrica. Eu seria papai e aquela mulher de calças arreadas querendo chorar (imagem bizarra) seria mamãe... Ficamos nos olhando por um tempo, eu perguntei “E agora?” e comecei a ter um ataque de riso (uma merda isso, mas quando eu fico muito nervoso começo a dar muita risada; aconteceu o mesmo quando descobri que minha vó tinha falecido). Ela pediu para eu parar, mas não tinha como... Fui pego de surpresa!
         Resumindo, eu fiquei algumas noites sem dormir, preocupado e com medo de não estar preparado, mas aos poucos foi caindo a ficha e percebi que não estamos preparados para nada, ou, pelo menos, achamos isso. Estava tudo bem, não é qualquer um que ganha esse presente. Eu fui escolhido a dedo para ter esse bebê. 
         Realmente não sei muito o que é ser pai, mas tudo na vida tem um começo ou o primeiro momento. Não importa a idade também. Existe uma mania idiota de falarem “Mas tão novo, com um futuro profissional pela frente”. Sério, não importa a idade, está escrito em que lugar essa lei? Não existe isso, é coisa criada na cabeça de pessoas que colocam o profissional na frente de tudo, que procuram algo tão grande que nunca será alcançado, pois é sonho. Sou ao contrário disso, tudo que eu tenho é concreto. Bom, quase tudo, ainda não peguei a minha filha no colo para amassá-la e beijá-la, mas imagino isso todos os dias... Droga, minha lente de contato está incomodando, está querendo lacrimejar.

         Moral de toda essa história que já está muito longa: não seja curioso e, se for, esteja preparado para o que pode vir!