Somos insuficientes


         É louco saber que procuramos alguém para fazer a diferença na nossa vida, como se não fôssemos suficientes para nós mesmos. Corremos atrás de uma pessoa, pois sentimos falta de algo, querendo preencher um vazio que muitas vezes não existe; é psicológico.
         E quanto mais você envelhece maior é a necessidade dessa procura. Não somos felizes sozinhos, não mesmo. Temos instantes de felicidades solitárias, mas para sempre não, nunca.

         Aí existe a necessidade do amor, da gente ficar se apegando a tudo e a todos. Para nos distrairmos, nos esquecermos, viver algo que a gente nunca viveu ou ter uma vida que a gente não pode ter no dia a dia.
         É bom sair para jantar com ela, ir ao cinema, curtir uma balada. Tudo isso sai do meu cotidiano e vai para um plano extraordinário. Eu me distraio, esqueço das dificuldades rotineiras e talvez nem lembre que eu sou um câncer para mim mesmo. Não estou sendo depressivo, mas nós somos um problema para nós mesmo.
         A cabeça fica a todo momento remoendo as histórias do passado, da felicidade antiga à um erro que cometeu. O futuro é sempre a projeção do que já aconteceu, é sempre “não irei mais fazer aquilo” ou “quando alcançar o que desejo não precisarei mais passar por isso”. Somos constantemente levados para trás ou para frente, mas nunca aqui, para o agora. E isso faz com que tudo morra.


         E somente um “amor” para fazer eu viver o presente, pelo menos no começo. Quer dizer, logo tudo se torna projeção e você começa a achar um saco namorar, pois percebe que está se parecendo com a vida que você vem levando diariamente. Corta relação. Está na hora de descartar e viver uma nova experiência.
        Aí então nós vamos, nesse ciclo vicioso, querendo nos perder, mas sempre nos achando novamente. Voltando ao ponto da solidão, sem nenhuma distração, olhando a nós mesmos em um espelho quebrado nas pontas. Sentindo toda a nossa incompletude, precisando ser preenchido por algo que talvez nunca existirá, tentando conviver com tudo que nós somos: um bando de insuficientes que projetam no outro uma saída para sobreviver.