Vou
encontrar você às três da tarde em frente àquele cinema mofado no centro da
cidade. Andaremos três quadras até um café e a conversa vai girar em torno de
improvisações e risos nervosos pontuando a nossa falta de intimidade. Vou
encontrar você às três da tarde em frente àquele cinema mofado no centro da
cidade. E o meu coração vai inundar minha cabeça de pensamentos sobre um futuro
ao seu lado. Alguém que me ver andando vai achar que estou embriagado. Os
passos coreografando uma visível ansiedade. Se eu parar e dançar o refrão da
música que entra pelo fone de ouvido, quem ousaria interferir nessa minha
ousadia? Vou encontrar você às três da tarde em frente àquele cinema mofado no
centro da cidade. E as três quadras até o café se repetirão em minha memória
momentos antes de minha morte. A linguagem incompreensível do amor não será
traduzida em um livro de capa dourada. Tenho certeza deste antes de nascer.
Tenho certeza há uns três dias quando sonhei que você me abraçava entre
lágrimas numa estação de trens. Tenho certeza nenhuma.
Eu
encontrei você às três e doze atrás daquela praça que sempre passo, mas não sei
o nome. Voltamos duas quadras até um bistrô. Pausa. Tudo girou em torno de
pausas entre dois silêncios significantes. Não sabia o que dizer. Eu encontrei
você às três e doze atrás daquela praça que sempre passo, mas não sei o nome.
Não sei. Qual é o seu nome? Eu não havia perguntado. Você tem cara de Marcelo,
mas um jeito de Carlos. Foi o que pensei. Não te perguntei nada, queria apenas
saber o seu nome. Não quis perguntar nada. Tudo que eu sei é que se chama Você,
vai bem? Eu encontrei você às três e doze atrás daquela praça que sempre passo,
mas não sei o nome. Viemos de lá. Não. Viemos de cá. Não me lembro. Nada. Só do
nosso silêncio. Do seu. Seu jeito de me olhar. Entre clichês, você mostrava
nossos filhos com olhos iguais aos seus. O seu apelido carinhoso. O sexo na
nossa nova cama King Size. A lua de mel em uma cidade turística. A sua morte.
Menos o seu nome.
