Velha companheira

  
   A Morte anda me cercando e tenho medo de ser o próximo. São as notícias de tragédias na televisão, o vizinho assassinado, os vídeos das pessoas sendo mortas. Estou criando o medo de deixar de existir. Quer dizer, às vezes, não quero sair por saber que posso não voltar. Em um curto tempo, a maldita me emparedou. Ando paranoico ao ponto de sonhar com essa sacana todas as noites.
   Ela está sempre toda de preto, com um chapéu inglês me encarando repleta de serenidade, algumas vezes ergue a mão para mim, como se me convidasse para dançar a última valsa antes de ir. Aquelas mãos enrugadas e pálidas tentam me tocar, mas nunca permito.
   Ainda não, eu digo para Ela, deixa eu conhecer mais sobre as estrelas, molhar os pés às 6 da manhã em uma praia que tenha um casal de senhores caminhando. Espera eu me apaixonar mais algumas vezes, tenho lágrimas para descobrir. Eu preciso de mais tempo para ser. Para ter. Para ver. Vá com calma, senhorita Morte. Não é minha hora, espere eu me realizar.
   Ela fica parada com um olhar de que sabe tudo, e realmente sabe. Por isso, eu tenho medo. Não a vejo se distanciando, apenas se aproximando e eu sem reação, parado. Queria ter acordado daquele pesadelo, de não ser levado nem em meus sonhos. Queria ter o controle do que se passa na caminha cabeça.
   Quando for o momento, a nossa valsa será tocada com vida, com direito a orquestra sinfônica para que tudo ao nosso lado vibre e hesite para um final surpreendente. Espere até às 2:22, é um bom horário. Quero poder olhar nos seus olhos e dizer que agora estou pronto para ir e foda-se o que será, pois nada mais me preocupa. Pode ficar tranquila. A última dança será exclusivamente sua, minha Morte.